terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Número Quatro
Rede Quente
Agora ele está dormindo, com os braços me abarcando calorosamente, e me sinto tão sensível quanto das outras vezes que estive com ele dormindo ao meu lado, sempre numa rede morna. “Ele está aqui... Ele está aqui...” é só o que eu penso enquanto olho o rosto tão doce que ele tem. Me recordo de quando prometi a mim mesma que nunca mais me envolveria com ele, que não tinha equilíbrio algum pra sustentar esse tipo de relacionamento que nós temos. Ainda não tenho equilíbrio, mas descobri que meu coração é inflamado demais para resistir ao cheiro dele, aos olhos dele, tão infantis e conhecidos meus. Nunca me senti assim, tão querida, tão conhecida. Só queria entender porque a gente é assim um com o outro. Nós sabemos claramente que somos apaixonados, que sentimos uma saudade imensa um do outro sempre, até quando estamos juntos. Mas não conseguimos nem dizer eu te amo em voz alta, nem discutir sobre o que queremos ser um pro outro. Lembro envergonhada de ter beijado outros homens enquanto sentia sua falta, de fingir carinho à outra pessoa enquanto fechava os olhos e só lembrava o rosto dele. Ele sempre me pede desculpas por ser assim, e eu sempre digo que tudo bem. Somos dois bobos. Agora ele acordou, e respira meus cabelos e me beija as costas com carinho e cumplicidade, e quando percebe meus olhos molhados, me segura a mão e me olha como se eu fosse a coisa mais amável que existe no mundo enquanto escreve com a ponta do dedo poemas de amor em minha pele.
Número três
Livre
Senti tanta coisa que só me acalmei depois de tomar um banho frio. Agora estou deitada na cama, ouvindo Bob Dylan. Hoje preciso ser clichê.
Senti-me sufocada, tirei a roupa, estou deitada vestindo sutiã e calcinha apenas. Sinto-me segura sentindo o colchão e o lençol tocando e aquecendo-me as costas. Não estou feliz, estou tranqüila, sentindo falta das milhares coisas que quis fazer e não fiz, dos relacionamentos que desejei e não tive, dos detalhes inúteis a que me apego tão fácil.
Na verdade, queria estar com o Pedro agora. Tivemos o impulso de fugir para algum lugar juntos. Queria ir e ficar junto dele, em silêncio. Não fomos. Muito ruim essa “distância entre intenção e gesto”. Queria só ficar calada perto dele. Só isso. Queria escrever outro capítulo do livro mas estou mais pro diário.
Engraçado o que estou sentindo pelo Pedro. Só quero ficar perto dele, sem malícia: só cumplicidade. Não quero ser só amiga, nem namorada. Quero ele comigo, apenas.